"SEMPRE IMAGINEI QUE O PARAÍSO FOSSE UMA ESPÉCIE DE LIVRARIA".
(Jorge Luís Borges)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Desafio literário - Poesia - Sentimentos do Mundo - Drummond

Para encerrar o desafio literário 2012, escolhi, para o tema de dezembro - Poesia, Carlos Drummond de Andrade.

Como a vida é cheia de surpresas, fui surpreendida com a escolha aleatória deste livro de Drummond, "Sentimento do Mundo", publicado em 1940. Explico: há alguns meses, na página da Biblioteca no Face apareceu um aplicativo em que, através de um teste, descobria-se qual poesia de Drummond poderia ser dedicada à você. À mim coube "Os ombros suportam o mundo", que até então, desconhecia. Para minha surpresa, era uma das poesias desse livro que escolhi sem maiores pretensões, a qual faço questão de compartilhar com todos:

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Sentimento do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras - 2012 - Ed. Bolso
77 páginas
Sinopse:
Publicado em 1940, Sentimento do mundo permanece, tantos anos depois, ainda um dos livros mais celebrados da carreira de Drummond. Não é para menos: o livro enfileira poemas clássicos como “Sentimento do mundo”, “Confidência do Itabirano”, “Poema da necessidade” - é possível que versos do livro inteiro tenham sido impressos no inconsciente literário brasileiro, tamanha é sua repercussão até hoje. Já estabelecido no Rio e observando o mundo (e a si mesmo) de uma perspectiva urbana, o Drummond de Sentimento do mundo oscila entre diversos polos: cidade x interior, atualidade x memórias, eu x mundo. Perfeita depuração dos livros anteriores, este é um verdadeiro marco - e como se isso não bastasse, é o livro que prepara o terreno para nada menos do que A rosa do povo (1945). Por isso a ênfase, ao longo de todo o livro, na vida presente.


Um dos mais conhecidos e admirados poetas brasileiros, este poeta e cronista nasceu em Minas Gerais, na cidade de Itabira, em 31 de outubro de 1902. Estudou em Belo Horizonte e em Nova Friburgo, se formou em farmácia, mas foi escrevendo que se realizou. Sua primeira obra poética publicada foi ''Algumas Poesias”, em 1930, e não parou mais, sendo que muitos de seus livros foram traduzidos para outras línguas.

Em suas obras você consegue acompanhar a evolução dos acontecimentos, suas poesias revelam os problemas do mundo, durante a Segunda Guerra. Ele soube analisar o homem moderno e seus sentimentos, e o seu modo de escrever sobre o assunto variava entre a sensibilidade e a ironia. Drummond faleceu em agosto de 1987, na cidade do Rio de Janeiro.

Meu preferido:

Não se mate 

Carlos, sossegue, o amor 
é isso que você está vendo: 
hoje beija, amanhã não beija, 
depois de amanhã é domingo 
e segunda-feira ninguém sabe 
o que será.

Inútil você resistir 
ou mesmo suicidar-se. 
Não se mate, oh não se mate, 
reserve-se todo para 
as bodas que ninguém sabe 
quando virão, 
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico, 
a noite passou em você, 
e os recalques se sublimando, 
lá dentro um barulho inefável, 
rezas, 
vitrolas, 
santos que se persignam,  
anúncios do melhor sabão, 
barulho que ninguém sabe 
de quê, praquê. 

Entretanto você caminha 
melancólico e vertical. 
Você é a palmeira, você é o grito 
que ninguém ouviu no teatro 
e as luzes todas se apagam. 
O amor no escuro, não, no claro, 
é sempre triste, meu filho, Carlos, 
mas não diga nada a ninguém, 
ninguém sabe nem saberá. 

("Brejo das almas". In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.)

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